Professor destaca riscos das mudanças climáticas e a premência de políticas públicas que incluam saneamento
“Não adianta resolver o problema da cidade e deixar a periferia sem esgoto e no lixo. Tudo isso faz segmento de um mesmo pacote, que é a nossa sobrevivência no planeta.” A asserção é do climatólogo João Lima Sant’Anna Neto, rabino e doutor em Geografia, com mais de 30 anos de pesquisa sobre clima. Ele esteve em Campo Grande para participar da Semana de Geografia da UFMS (Universidade Federalista de Mato Grosso do Sul) e, depois o evento, visitou o Bioparque Pantanal.
O climatologista João Lima Sant’Anna Neto alerta que a falta de infraestrutura nas periferias intensifica os impactos das mudanças climáticas. Durante visitante a Campo Grande, o profissional destacou que não basta resolver problemas do meio urbano enquanto áreas periféricas carecem de saneamento capital. O pesquisador enfatiza que o aquecimento global tem componentes naturais e humanos, mas defende que as cidades precisam se tornar mais sustentáveis e justas. Em Campo Grande, um projeto pioneiro de condomínio popular sustentável, com 164 moradias, será construído no Bairro Paulo Coelho Machado, incluindo placas solares e sistema de reaproveitamento de chuva.
Em entrevista, o profissional destacou que a precariedade das populações periféricas intensifica os impactos de chuvas fortes, enchentes e doenças. Ele citou uma vez que exemplo os surtos de dengue em Paranavaí (PR), nos anos 2000, que atingiram principalmente vilas operárias próximas a lixões.
João Lima explicou que as mudanças climáticas precisam ser analisadas em diferentes escalas de tempo. “Existem fenômenos que acontecem em milhares de anos, outros em séculos e alguns em semanas. Quando esses movimentos ocorrem simultaneamente, surgem grandes tragédias”, disse, citando o El Niño, que provoca secas em algumas regiões e excesso de chuvas em outras, e a Oscilação Decadal do Pacífico, um padrão de variação oriundo do clima que afeta a temperatura global e regional.
Embora a ação humana acelere o aquecimento global, o professor ressalta que segmento do aumento de temperatura é oriundo, resultado do período interglacial, uma tempo mais quente da Terreno. “Mesmo que façamos enormes esforços para reduzir emissões, a tendência oriundo é de aquecimento. O que podemos e devemos fazer é transformar nossos espaços de vida em ambientes mais justos, saudáveis e sustentáveis”, afirmou.
O pesquisador também criticou o protótipo atual de urbanização. Ele lembrou que moradias sustentáveis, termicamente e economicamente eficientes, já foram desenvolvidas por institutos uma vez que o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), mas são pouco utilizadas devido a interesses econômicos e à indústria da construção. “Não basta embelezar o meio da cidade. A maior segmento da população vive nos entornos. Obras, arborização e zelo com a paisagem precisam ser pensados para todas as áreas urbanas, e não exclusivamente para regiões centrais”, disse.
João Lima reforçou que, para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, é fundamental integrar planejamento urbano, redução de desigualdades e políticas de saneamento, principalmente em áreas periféricas. “Não podemos criminalizar o clima. A chuva não mata; quem sofre são as populações mais vulneráveis. É lá que precisamos atuar”, concluiu.
Além das questões sociais, o professor destacou que o planeta passa por ciclos climáticos de diferentes escalas, de semanas a milhares de anos. O problema atual, segundo ele, é a velocidade e intensidade do aquecimento. “Já tivemos períodos mais quentes e mais frios na história, mas hoje a ação humana acelera esse processo. O planeta não precisa da gente; nossa obrigação é deixá-lo minimamente vivível para as próximas gerações.”
João Lima defende que o enfrentamento das mudanças climáticas deve vir escoltado de políticas públicas que promovam justiça social e planejamento urbano. Ele citou exemplos de soluções sustentáveis, uma vez que rodovias construídas com pneus reciclados na Argentina e projetos de moradias populares de insignificante dispêndio e subida eficiência energética no Brasil. “O que nós somos capazes de fazer é transformar nossos espaços de vida humana em ambientes mais justos, saudáveis e sustentáveis”, reforçou.

Em julho, o governador Eduardo Riedel autorizou, em Campo Grande, a construção do primeiro condomínio popular sustentável do Brasil, com 164 moradias, além de outras 50 unidades para o município de Douradina. O condomínio na Capital contará com placas solares, reaproveitamento de chuva e uma proposta de construção sem muros entre as unidades habitacionais. O projeto ainda inclui 15 lojas para aluguel, gerando renda para o condomínio, localizado na Avenida dos Cafezais, no Bairro Paulo Coelho Machado, região sul da cidade.
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