“Planeta não precisa da gente”, alerta especialista sobre aquecimento global

"Planeta não precisa da gente", alerta especialista sobre aquecimento global

Pesquisador explica porquê aquecimento e perda de vegetação ampliam os fenômenos extremos no Brasil

Professor João Lima falou com o Campo Grande News durante vista ao Bioparque Pantanal  (Foto: Henrique Kawaminami)

“As ondas de calor que atingem o Brasil estão mais fortes e duram mais tempo por desculpa do aquecimento global.” A certeza é do climatólogo João Lima Sant’Anna Neto, que explicou ao Campo Grande News porquê o aquecimento dos oceanos, a perda de vegetação e a ação humana têm intensificado os extremos climáticos. Rabino e doutor em Geografia, com mais de 30 anos de pesquisa sobre o clima, ele esteve em Campo Grande para participar da Semana de Geografia da UFMS (Universidade Federalista de Mato Grosso do Sul) e, depois a palestra, visitou o Bioparque Pantanal.

O climatologista João Lima Sant’Anna Neto alerta sobre a intensificação das ondas de calor no Brasil devido ao aquecimento global. Durante visitante ao Bioparque Pantanal, o pesquisador explicou que o fenômeno ocorre quando grandes massas de ar quente bloqueiam a ingressão de ar insensível, situação agravada pela elevação da temperatura dos oceanos e redução da cobertura vegetal. O perito ressalta que vivemos uma temporada de transição climática, com mudanças mais agudas devido à ação humana. Ele alerta sobre os riscos ao Pantanal e critica a tendência de responsabilizar exclusivamente o clima por tragédias urbanas, destacando que o planeta continuará existindo independentemente da humanidade, mas há uma responsabilidade moral com as futuras gerações.

Segundo João Lima, o fenômeno ocorre quando massas de ar quente, muito volumosas, bloqueiam a ingressão de ar insensível, mantendo as temperaturas elevadas por vários dias consecutivos. “Mesmo o ar insensível sendo mais pesado que o ar quente, o volume do ar quente é muito maior e consegue barrar a passagem. Enquanto uma novidade frente fria não chega, a temperatura só aumenta. O problema é que, com o aquecimento global, essas ondas estão ficando mais intensas e durando mais tempo”, afirma.

O pesquisador aponta que a elevação da temperatura dos oceanos tem agravado a situação, levando calor para o continente e alterando a dinâmica climática. A redução da cobertura vegetal também contribui. “Quanto mais você diminui o tamanho da floresta, mais aumenta a temperatura. Uma árvore retira calor da atmosfera. Tirar uma árvore para colocar uma moradia já muda o microclima. No Tapado, no Pantanal e no sul da Amazônia, cada vez que o calor chega, ele permanece mais tempo justamente pela perda de vegetação”, destaca.

Para ele, vivemos uma temporada de transição climática, em que padrões conhecidos deixam de subsistir. “Estamos numa temporada de grandes modificações. As estações já não têm os mesmos padrões que conhecíamos. Podemos ter insensível em janeiro e calor insuportável em julho. O clima sempre mudou e vai continuar mudando, mas agora a ação humana tem tornado essas mudanças mais agudas e violentas”, ressalta.

Ao comentar a fala da ministra Marina Silva sobre o risco de desaparecimento do Pantanal até o término do século, caso o ritmo atual de exploração e queimadas continue, o professor citou o geógrafo Aziz Ab’Saber, que mapeou áreas da Amazônia consideradas intocáveis por sua relevância para a reprodução do ecossistema. “O mesmo vale para o Pantanal. Já existem áreas mapeadas que não podem ser tocadas. Se for ocupar, você coloca todo o sistema em risco. O problema é que interesses políticos e econômicos têm avançado sobre essas regiões”, lamenta.

Ondas de calor estão mais fortes e duram mais tempo, alerta climatólogo
Imagem superabundante mostra secção do Rio Paraguai em Corumbá (Foto: Henrique Kawaminami)

O climatólogo também critica a tendência de responsabilizar exclusivamente o clima por enchentes e tragédias urbanas. “A magnitude de uma enchente urbana está muito mais ligada ao planejamento das cidades, à impermeabilização do solo e ao manejo inadequado de córregos e áreas verdes do que exclusivamente à intensidade da chuva. É preciso separar o que é fenômeno climatológico do que é consequência da forma porquê ocupamos o espaço”, explica.

Apesar do cenário preocupante, o professor lembra que a sociedade tem uma responsabilidade moral e moral com o porvir. “O planeta não perdoa, o planeta não precisa da gente. Já eliminou muitas espécies que se julgavam donas dele. Nós vamos passar e o planeta continuará. Nossa obrigação é deixá-lo minimamente vivível para as próximas gerações. Não podemos tirar delas o recta ao porvir”, afirma.

Ele ressalta que a atenção deve estar voltada tanto para as questões ambientais e climáticas quanto para a justiça social. “Não adianta resolver o problema da cidade e deixar a periferia sem esgoto, no lixo. Tudo isso faz secção de um mesmo pacote, que é a nossa sobrevivência no planeta”, alerta.

Além de falar sobre os riscos ambientais, o professor também destacou as diferenças entre meteorologia e climatologia, áreas que muitas vezes são confundidas. A meteorologia, segundo ele, está voltada para a previsão do tempo repentino, enquanto a climatologia analisa períodos mais longos, identifica padrões e anomalias e procura compreender as transformações do clima.

Ondas de calor estão mais fortes e duram mais tempo, alerta climatólogo
Carcaças de animais mortos durante o incêndio ocorrido no ano pretérito no Pantanal de Corumbá (Foto: Henrique Kawaminami)

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